Olá pessoas!
Faz mais de um mês que não passo por aqui para compartilhar algo com vocês, meus queridos leitores. Senti muitas saudades. Por vários fatores acabei não criando a oportunidade de escrever sobre algum assunto. Estou renovado para novos textos e espero recuperar o ritmo para escrever com maior frequência. Hoje o tema será profundo: a relação entre a progressão da minha doença - a Distrofia Muscular de Duchenne (DMD), cuja ação causa a degeneração do tecido muscular - e o meu progresso como pessoa, como ser que constantemente aprende com sua vida.
Como descrito nas linhas anteriores, a DMD se caracteriza por ser progressiva, ou seja, sua ação vai evoluindo ao longo dos anos e degenerando os músculos, dificultando seus movimentos. Isso torna minha vida uma aventura, pois de tempos em tempos, é preciso parar e pensar em como resolver barreiras novas que vão surgindo. Na minha infância comecei a ter dificuldades para andar e fazer algumas outras atividades simples para as outras crianças. Pela experiência do cotidiano, passei a perceber que ficava um pouco "para trás" em qualquer exercício físico. Até então, somente minhas pernas sofreram com a progressão. Quando vi, já estava usando uma cadeira de rodas, quando vi meus braços enfraqueceram e nem movimentar a própria cadeira conseguia. A dependência aumentou, os desafios se multiplicaram, a acessibilidade nos lugares usando os pés se transformou com as rodas.
O tronco do meu corpo virou progressivo, me obrigando a procurar melhores adaptações para frear o ritmo contínuo de adversidades. No meio disso, a cadeira de rodas motorizada foi uma vitória, me dando oportunidade de voar, ou pelo menos planar acima do chão - metáforas de lado, ganhei um pouco mais de autonomia. Para segurar a gravidade que lutava contra mim, contei com as adaptações específicas para minha necessidade naquele instante. Contei com outra surpresa (pois mesmo sabendo que o futuro me reservaria obstáculos, não me sentia antecipadamente preparado para enfrentá-los e quando chegavam, apenas após assimilá-los eu encontrava a força): os pulmões foram afetados na capacidade pulmonar, levando-me àa trabalhar a respiração. Quase que simultâneamente, coletes para segurar a postura estavam em fase de medidas e testes. Depois, meu pescoço pareceu estar com um parafuso a menos: sustentar a cabeça ficou difícil, necessitando de um encosto de cabeça na cadeira. A segunda reforma geral na cadeira, surgiu em busca de manter a postura da coluna e de todo o tronco por meio de um novo colete, dessa vez mais moderno, além de ser frente e verso. Novas órteses para reposicionar os pés, assento novo, estrutura nova. Tudo graças a uma amiga muito especial que me presentou com as novidades em adaptações - nunca deixo de agradecer quando lembro deste maravilhoso gesto.
Agora, cá estou eu seguindo em frente com minha cadeira motorizada, procurando viver sem ter a vergonha de tentar ser feliz. Minha dependência de outras pessoas vai aumentando com o tempo e as opções de atividade exclusivamente sozinho vão se reduzindo. Junto à essa progressão, a atrofia do corpo se faz presente: as pernas não esticam, os dedos precisam de exercício para manterem suas extensões - isso interfere na minha própria tarefa como poeta, a de escrever, onde o toque direto no papel, da escrita rascunhada feita à lápis, cheia de rabiscos nas folhas, toda desorganizada, mas que no final de tudo se tornava uma obra pela qual sempre sentia carinho. Ainda sinto esse carinho, mas a eficiência no teclar dos botões computadorizados predominou e desde então, uso mais o teclado para digitar praticamente tudo, inclusive minhas próprias poesias. Até quando vai durar este período mais neutralizado em que me encontro? Não sei. É um mistério. Sei que algo pode aparecer daqui para frente. Espero que não, mas conviver com a palavra progressão é uma grande luta.

Mas se estou aqui contando esta história verdadeira para vocês, em um blog que criei no começo deste ano (que era um sonho antigo meu, confesso), é porque existe algo dentro de mim que me mostra o caminho. É o progresso da minha alma. Trata-se da transformação do meu ser, da troca de experiências que a cada momento, me faz uma pessoa melhor, mais de bem com a vida, mais do bem, mais confiante, mais forte, mais... aprendiz. Na infância, já fui tímido a ponto de me cumprimentarem e eu não retribuir; já fui anti-social e solitário - mas mesmo assim tive amigos muito especiais. Na adolescência, já fui rebelde com algumas coisas, já procurei prazer na comida, tanto que engordei muito - mas depois emagreci e encontrei um melhor sentido para a vida. Já fui um adolescente que não sabia perder nos jogos, já cometi erros que não pude reparar, já tive uma época em que xingava, em que dizia palavras duras. Durante esse período, aproveitava a vida em certas coisas, mas ao mesmo tempo, desistia frequentemente, até tentava escondido, rezar por um milagre, colocando os pés no chão e tentando levantar em um passe de mágicas, mas claro que não dava certo. Isso tudo que escrevi, muita gente não sabe. Nem sempre fui a pessoa bondosa que sou hoje. Relativamente não faz tanto tempo assim que me tornei alguém com bondade no coração. No passado, fui um adolescente que tinha uma baixa auto-estima por mim mesmo. O progresso que tive na alma foi aparecendo a cada ano, a cada luta que tinha que fazer para continuar seguindo em frente. Apesar das recaídas e dos acidentes de percurso, algo me fazia acreditar na vida. Na infância, na adolescência e na minha juventude, eu era movido pelo amor - aquele amor de um menino por uma menina, de um adolescente por uma garota, eu amei tanto que todo dia, acordava alegre só para ver cada amada, só que de forma secreta.
Enquanto o corpo sofria, minha alma foi descobrindo cada vez mais o amor e progredindo sua essencia mais profunda. Até que chegou um belo dia, no qual o amor que sentia me transformou em um quase poeta, que escrevia tipo uma vez por ano. Surgiu uma nova paixão, que se tornou musa das minhas primeiras poesias. Aí a frequência com que eu escrevia virou mais um progresso em minha vida. O amor me abençoou com um talento que na época eu fazia inocentemente por hobbie. Mas as poesias não foram só isso, elas eram a fonte de minha força (e sempre serão), pois quanto mais eu colocava para fora o amor, melhor eu me sentia, melhor eu me conhecia, melhor eu me descobria, melhor eu transformava minha auto-estima. Isso tudo foi me conduzindo para outro tipo de amor: o amor incondicional, desejando não só o bem das minhas paixões, mas também de todos ao meu redor. Passei a me inspirar na própria vida e em como ela possui um amor imenso. O amor me mostrou que eu poderia deixar de ser egoísta somente com meus problemas, por maior que eles fossem, e ajudar ao próximo da mesma maneira que sempre fui ajudado. A cada ajuda que oferecia, em troca me sentia melhor ainda e aprendia o quando é bom praticar o bem. A partir daí, o amor foi se multiplicando em novas palavras no meu vocabulário - bondade, humildade, honestidade, generosidade, perdão, servir, dignidade, simplicidade, sinceridade, carinho, respeito, companheirismo, gentileza, entre tantas outras muito especiais.
Unindo esses amores, o pelas musas e o pela vida, o progresso na alma foi se tornando cada vez maior. Na mesma proporção que a progressão foi agindo, o progresso no meu interior foi se formando, resultando na pessoa que sou hoje, que aprende com seus erros, que aprende independente do tempo estar bom ou ruim, que busca evoluir espiritualmente, que luta para realizar os sonhos... Que ama muito todos que fazem parte de sua vida, que ama muito toda sua família, que ama muito todos os seus amigos (os que convivi, os que convivo e os que conviverei).

Maior do que todas as dificuldades, maior do que qualquer coisa que seja progressiva, maior do que tudo o que acontece com meu corpo, maior que qualquer vontade desistir, é o progresso que constantemente vai se acrescentando dentro de mim. Meu coração sempre estará aberto para que entre tudo de bom e de sábio que a vida me reservar, através de lugares, momentos e pessoas inesquecíveis. Ser sábio é lembrar que sempre estamos em processo de aprendizado, até o final de nossas vidas.
Logo menos, volto com mais textos bacanas.
Um grande abraço!