O uso da cadeira de rodas é essencial para as pessoas que têm alguma deficiência capaz de impedí-las de se locomoverem na posição em pé. A presença da cadeira é tão importanate que pode-se dizer que é quase parte do corpo. Falo quase pois tem horas nas quais a troca da cadeira por um sofá ou por uma cama se faz necessário por conta das escaras - feridas no corpo ocasionadas pela permanência numa mesma posição. A cadeira é o nosso transporte, onde vamos em uma roda e voltamos em outra, os nossos passos são dados pelos pneus, que tocam o chão. A cadeira é a nossa opção confortável para sentar, pois isso é feito praticamente o dia todo. A cadeira nos permite viver no cotidiano, saindo de casa, passeando, fazendo as mais diversas atividades de casa, o trabalho, o estudo, a própria vida. Se lutamos para conquistar nosso espaço, a cadeira está do nosso lado (ou melhor, abaixo de nós, atrás de nós, carregando-nos para lá e para cá), pois faz parte de nós, que também estamos do lado dela, desejando que haja acessibilidade suficiente para ela e consequentemente, para nós mesmos. Por isso, para comparar a cadeira de forma reflexiva, em minha mente veio "cavalo".
Aos 12 anos, ganhei meu primeiro cavalo. Na época, sentia muitas dificuldades para me locomover e tinha que ser carregado no colo ou de alguma outra forma para ir a algum lugar. Era uma sensação estranha ser carregado, o que incomodava um pouco: tinha que estar com o corpo no alto, sem tocar no chão, os passos que me levavam me mantinham balançando no ar, meu peso fazia tremer os braços firmes que me seguravam e eu ficava olhando o chão distante de mim. Mesmo novo, sabia que dali pela frente, minha vida mudaria. Até que chegou o dia no qual fui para São Paulo conhecer meu primeiro cavalo. Ele era de uma raça mais simples, sem tanto luxo, confortável; o objetivo era um modelo "para sentar", ser meu companheiro e me levar por todos os cantos. Já saí da loja montado nele e me adaptando às rédeas para guiá-lo para onde eu desejava ir. Ou seja, como havia força no braço, eu passei a aprender a girar a roda de trás para movimentar a cadeira.
Posso dizer que fui cavaleiro ao conduzir meu cavalo e ao mesmo tempo, em situações com falta de acessibilidade ou lugares repletos de obstáculos, precisava de alguém para guiá-lo por mim, na frente, mostrando o caminho. Em outras palavras, empurrando a cadeira, empinando-a ao longo dos degraus, desníveis, rampas bem inclinadas e qualquer outra superfície irregular. Para me colocar no cavalo, sou totalmente dependente de uma ajudinha. Dois anos depois de ganhar meu primeiro cavalo, passei a sentir dificuldades em movimentar meus braços e com isso, já não podia mais cavalgar sozinho no cavalo. As aventuras secretas, os momentos de Zorro, as horas de independência, compartilhados entre eu e ele, passaram a contar com novas mãos, novos braços.

Em 2004, fui à Campinas, onde conheci meu segundo cavalo - o Liberdade. Naquela oportunidade, o objetivo não era apenas um cavalo "para sentar". Era muito mais do que isso. Eu precisava corrigir a postura da minha coluna e me sentar melhor no cavalo. Era o momento de usar equipamentos para montar nele, de modo a melhor me sentar e com conforto: colocamos sobre ele a sela (o assento para montar), os estribos (peças para encaixar os pés, apoiando-os para dar comodidade), as rédeas que dão um rumo para o cavalo, entre outros. A sela representa o assento da cadeira, que deve ser firme para sustentar e ao mesmo tempo mole para um sentar agradável. Os estribos representam o apoio para os pés numa cadeira, o qual deve alinhá-los e posicioná-los. As rédeas no caso, representam os fios da cadeira motorizada, responsáveis pela minha volta à independência na montagem sobre o cavalo. Tive que aprender a andar com a nova cadeira, que até hoje faz parte da minha vida.
No final do ano passado, uma amiga me presenteou com novos equipamentos para meu cavalo e para mim também. Para minha cadeira, um novo assento, um novo encosto para a cabeça e para mim uma bota hípica para montar melhor (ou seja, uma órtese para colocar meus pés numa boa posição e bem apoiado na cadeira) e um colete para segurar meu tronco em uma boa postura.
A cadeira e eu. Eu e a cadeira. Somos inseparáveis. Dependo dela para viver no dia-a-dia, preciso dela para tudo. Ela depende de mim para se mover, pois necessita dos comandos do controle. Já caí da cadeira algumas vezes e doeu muito, já virei junto com a cadeira, bati a cabeça e fez um galo enorme. Já fiquei molhado junto com a cadeira durante chuvas. Já realizei sonhos com sua ajuda. Já vivi bons momentos em cima dela. Já vivi momentos difíceis também... A qualquer instante, estarei na companhia do cavalo - a minha cadeira de rodas.
Não sei se acertei na comparação, mas tentei abordar o assunto de uma forma diferente. São pequenas metáforas, pois nunca tive um cavalo, mas a cadeira de rodas eu uso desde os 12 anos até os dias de hoje.
Abraços!
6 comentários:
Oi Fabião, beleza?
Cara, foi muito bom ler o seu post hoje. Essa semana eu estava meio tristão, cheio de lembranças de uma vida mais "normal" sem a cadeira.
Mas lendo o seu post, me fez repensar...sem ela tudo seria muuuuito pior!!
Gostei da alusão ao cavalo. Sorte que os nossos não dão coice e muito menos cagam, né?
Grande abraço
Oi Evandro,
Fico feliz que tenha gostado do post e ainda mais por ter trazido uma mensagem positiva para você.
Essas lembranças realmente acontecem. Sei como é sentir-se desta forma, pois já cheguei a andar, mas foi há muito tempo. Não fique triste com as lembranças, pois não podemos voltar atrás, ao passado, lembre-se que teve oportunidade de andar nesta vida, que foi muito bom aqueles tempos mas lembre-se também dos bons momentos e das peculiaridades em se viver sobre rodas, com um novo olhar, uma nova maneira de encarar a vida. A vida está aí, no presente, e mesmo na cadeira, o futuro pode nos reservar os melhores sentimentos, que fazem parte do amor. O pensamento positivo é um grande aliado, além de tentar ver os acontecimentos de um ângulo positivo.
Para a sociedade, usamos apenas uma cadeira, como se fosse uma prisão. Para nós, que convivemos com a cadeira, a vemos como parceira, pois ela nos leva e ao mesmo tempo nós a levamos. A cadeira faz parte de nossa vida e é uma "amiga" especial. Me sinto contente por ter te feito repensar.
A alusão ao cavalo, acho que vi no blog do Jairo e aproveitei para desenvolver de acordo com minha visão de mundo e de vida sobre o assunto. O meu não dá coice, mas solta graxa às vezes rsrs
Grande abraço!
Fábio, é muito comum ouvir de algumas pessoas :"Nossa, fulano está preso a uma cadeira de rodas". Não concordo, acredito que fulano está LIVRE na cadeira de rodas...ela é as pernas, o meio de transporte, sua amiga, companheira e cavalo, rs. Quem tem o olhar de piedade não pode imaginar quantas aventuras, passeios, baladas, esses "cavalos" proporcionam a quem necessita deles para se locomover, não é? Impossível imaginar meu Adjair longe da "Cacilda" dele, isso mesmo, a dele se chama Cacilda, rs. Mas tem uma coisa que me deixa muito brava, é o preço de uma boa cadeira...caramba! Não é luxo, é necessidade.
Beijo grande pra vc.
Amigo Fábio,
Estou gostando muito de suas metáforas.
Não é nada fácil estar andando e depois ir para uma cadeira, porém, a ajuda que ela traz é muito importante. Quando vc conseguiu a cadeira atual, percebi o quanto a independencia ("dirigir sozinho") foi bom para suas "cavalgadas".
Momentos dificeis, tristes, engraçados, felizes.... alguns acompanhei de perto. Não sou cadeirante, porém, muitos anos trabalhando com os que utilizam, me ensinaram a perceber os sentimentos , as dificuldades e esperanças de todos com os quais convivi e convivo atualmente.
Continue com suas palavras de incentivo ao próximo.
Beijos. Muita luz.
Tania
Olá Glória!
Essa frase realmente é bem comum e muitas pessoas acabam falando sem entender como nós cadeirantes vemos a situação. Existem conceitos que falam sobre transformar um "problema" em oportunidade e ao contrário do pensamento da sociedade, o fato de estar na cadeira de rodas e precisar dela, pode se transformar numa oportunidade de viver sob um novo olhar, novas aventuras e encontrar a criatividade para se incluir no cotidiano da sociedade.
Estar na cadeira de rodas é ter liberdade, é ser acolhido por um "automóvel" que te acompanha praticamente o dia todo, que te leva para lugares e te leva para vivermos grandes sensações!
Também não me imagino longe da minha cadeira, que é motorizada rsrs A minha não tem nome. No post chamei de Liberdade, pois é a tradução de Freedom (marca da cadeira) e não queria fazer propaganda rsrs
Bem que eu poderia ter feito a comparação de preço: tanto um cavalo quanto uma cadeira são caros. Realmente a cadeira tem preços absurdos, precisa ser específica para cada caso e no fim, não temos escolha, pois a cadeira é essencial.
Beijos,
Fábio
Olá Tânia!
Fico feliz que tenha gostado das metáforas, por isso, continuarei a usá-las para deixar os textos com minha cara. A transição do deixar de andar ao uso da cadeira foi um momento muito difícil, mas que graças a Deus consegui superar. Minha cadeira faz parte da minha vida e me dá condições de caminhar, mas com as rodas. As cavalgadas independentes me permitiram obter grandes conquistas e demonstram uma forma especial de viver a vida.
Foram diversas situações com ou sem cadeira, que você, com suas palavras, me ajudou a vencer, pois sempre me acompanhou, quando eu andava, quando fui para a cadeira e até os dias de hoje. Por mais que eu tenha aceitado estar na cadeira, pode ser que em algum dia eu sinta falta de andar ou não esteja me sentindo bem, mas tudo isso será vencido com força e com ajuda da cadeira.
Muita luz para você e toda sua família!
Beijos,
Fábio
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