Contatos iniciais com o meu "eu robô"
Como falei nos textos anteriores, atualmente uso uma cadeira de rodas "elétrica", ou melhor dizendo, motorizada. Tudo começou no ano de 2004, quando meu corpo exigiu algumas adaptações para cadeira. O momento era de inovação: já que teríamos de trocar a cadeira por um novo modelo e eu já não conseguia me locomover com a normal, decidimos aproveitar o embalo para adquirir uma cadeira que se move com o clicar dos botões. "Freedom", palavra que nomeia a cadeira e para mim foi justamente seu significado que passei a usufruir - liberdade, independência, autonomia. Minha era robótica havia se iniciado a partir daquele ano.
Me transformando em "robô"
Por eu presenciar uma transição em minha vida, de um modelo de cadeira sem adaptações e com minha posição acomodada, para um outro adaptado, confesso que não passei a usar rapidamente quando estava com a novidade em casa. Nos primeiros meses, meu corpo não conseguia se moldar na postura correta da nova cadeira e ainda não estava pronto para sair por aí dirigindo que nem doido. Primeiramente, usava só dentro de casa. A minha cadeira motorizada é controlada por um "joistick" - um controle direcional - e pelos botões de "liga/desliga", "turbo" (esse botão uso só de vez em quando) e por um que chamo de "liberar" - serve para quando tiver um obstáculo difícil e precisar de alguém, permitindo que seja mais fácil empurrar a cadeira. Acontece que nas primeiras voltas, o movimento vai sendo feito aos "trancos e barrancos", pois o controle direcional é sensível e qualquer força a mais com a mão se torna radical. O toque tem que ser de leve, coisa que só aprendi com a prática. Passei a praticar as manobras básicas no quintal de casa, onde inventei um caminho imaginário de curvas e retas para descobrir a velocidade correta, para desviar de obstáculos, para dar ré, para descer e subir rampas, etc. Todo dia, dava pelo menos uma volta no circuito invisível que criei. Até então, o treino foi no quintal vazio, sem pessoas passando por perto.
Riscos, marcas de pneu, lascas de madeira e cia
É claro que um "robô" no dia-a-dia é difícil de se manter sem que haja algum risco na parede ou nos móveis. Dentro de casa tenho que estar atento às curvas e portas mais apertadinhas, à proximidade dos objetos, ao espaço para manobrar, ao meu cachorro que deita a qualquer hora e em qualquer lugar. Deixei muitas marcas de pneu nas paredes, tirei lascas de madeira de alguns móveis, estraguei a proteção de borracha na mesa que vem junto com a cadeira, passei por cima de tênis, sapatos e chinelos. Sendo "robô", também sofri panes no sistema e tive de substituir peças por novas. Uma vez um dos pneus foi furado por uma tachinha danada - como foi no ensino médio, na escola, tachinha era o que mais tinha - num dia no qual estava fazendo um trabalho extra, para atender um grupo de alunos de outra cidade e acabei sendo liberado pela falta de um bom pneu. A pane aconteceu na faculdade, em plena chuva de verão, momento em que entrou água no controle, deixando os botões doidos, fazendo tudo ao contrário: o comando para trás movia a cadeira para frente e vice-versa. No fim das contas, o controle voltou ao normal. Em relação à atropelamentos com a cadeira motorizada, pouquíssimas vezes ocorreu alguma trombada ou passada por cima do pé de alguma pessoa. E nunca foi por maldade - talvez desatenção ou reflexo rápido mas não o suficiente para desviar de alguém. De qualquer forma, sempre piloto com atenção, observando qualquer passo a mais de quem estiver a minha volta, que possa causar algo de errado.
Novos horizontes
Em 2005, passei a usar minha cadeira motorizada não só em casa, mas também durante as aulas na escola. Na minha estréia robótica, a galera da sala tinha reparado na novidade, mas tiveram certeza da mudança na hora em que com o simples toque no botão, me locomovi através da cadeira. A partir daí, o contato do meu "eu robô" com as pessoas se tornou cada vez mais frequente. Nas semanas iniciais, entrava direto na sala, sem me arriscar nas rampas e obstáculos que existiam na escola. Com o tempo, percebi que dava sim para ficar do lado de fora da sala com os amigos e outros alunos. Estava muito bem treinado para isso. Claro que com gente perto, a atenção tem que ser redobrada. Geralmente eu estacionava ao lado de um banco mais tranquilo, aguardando a chegada do pessoal. Era um dos primeiros da sala a chegar. Até que tocava o primeiro sinal e era hora de partir, pois alguns alunos começavam a ir para suas salas. Mas no segundo sinal, a muvuca era geral, muita gente se aglomerava perto da entrada, coisa que um "robô" não se sente à vontade. Dependendo do andar onde estudava, precisava subir as rampas de um nível para outro, muitas vezes tinha gente subindo do meu lado, diminuindo o espaço físico para a subida - costumava ficar no canto direito, para facilitar a curva e seguindo sempre em linha reta. Para descer era mais fácil, mas tinha que ir com velocidade reduzida para não ir com tudo na descida, sem contar que no final das rampas, a chance de de repente aparecer alguém era grande. Com o tempo, a escola foi criando acessibilidade que facilitava para um cadeirante robótico e isso me ajudou muito - certamente ajudará os próximos cadeirantes que estudarem por lá. A iniciativa que mais me encantou foi a Mega Rampa que fizeram para o acesso à biblioteca, que antes só era possível por meio de escadas que davam para um andar abaixo. Realmente senti a impossibilidade de entrar na biblioteca, pois para alugar livros, alguém precisava fazer isso por mim, mesmo eu tendo liberdade com a cadeira motorizada. Foi difícil não conseguir pegar livros de meu interesse por causa de um grande obstáculo. Bom, mas o dia em que a rampa estava liberada para minha primeira visita à biblioteca, foi emocionante, senti a alegria de mais uma possibilidade aos estudos, gravei o cenário de mais um lugar na mente. Me tornei um grande visitante do lugar, aluguei vários livros, consegui acompanhar meus amigos nos trabalhos feitos na concentração e silêncio da biblioteca. Enfim, foi muito bom.
Liberdade de lazer e entretenimento
Minha vida robotizada não parou por aí. A autonomia que conquistei, me abriu literalmente novas portas, inclusive para meu lazer e entretenimento. Isso me permite sair de casa, ir ao teatro, ao cinema, aos eventos, ao shopping, entre tantos outros lugares. No teatro, me deixam e me buscam sem preocupações, me oferecendo oportunidade de me divertir com as peças e ainda no final, poder tirar foto e conhecer grandes atores dos quais sou fã. No cinema, posso eu mesmo escolher em que lugar ficar, entrar e sair ao lado dos amigos ao invés de na frente de algum deles, que estaria me empurrando. Nos eventos, é possível ir naquela obra que me chama atenção, de forma natural, podendo olhar com tranquilidade cada atração, me envolvendo profundamente com cada evento, com o espaço em que acontecem. No shopping, igualmente. Há facilidade para eu rodar por todas as lojas, olhar as vitrines e se possível entrar nas lojas, ir para um canto mais reservado ou cheio de gente, ir na praça de alimentação, comprar alguma coisa, enfim, aproveitar como todos. Shows também passaram a fazer parte da minha lista de diversão, a partir da ida ao show da minha cantora preferida, Ivete Sangalo, que me surpreendeu pela oportunidade de entrar no camarim, ao lado de minha família e ficar uns 10 minutos conversando com a minha ídola. O meu "eu robô" permitiu tudo isto: um conjunto de possibilidades positivas para viver.
Meus "eus"
Quando sou "robô", preciso carregar as baterias, ser "desmontado" para caber no carro, usar a mesa da cadeira, evitar água de chuva ou de qualquer outra fonte, encontrar rampas e obstáculos fáceis de serem vencidos, ligar ou desligar, dar um turbo para rodar mais rápido, "liberar" a cadeira para me empurrarem, mover o botão direcional no rumo que desejar, - frente, trás, direita e esquerda - trocar os pneus e outras peças.
Quando sou "eu mesmo", a alma que guia minha vida, uso o motor da cadeira para ir atrás de sonhos, de lugares, de momentos especiais e para estar ao lado dos meus queridos amigos e da minha querida família. Junto disso, as emoções vão me acompanhando, me fazendo sentir como independente e liberto para voar, quer dizer, rodar pela imensidão de possibilidades. Ser livre para aproveitar cada momento e poder ter uma auto-realização é algo que não tem preço. Melhor do que ter bateria para me locomover aonde quer que eu esteja, é pensar com o coração de que maneira usarei essa dádiva para aproveitar o amor que existe ao meu redor, estando presente nos instantes mais propícios a qualquer forma de se amar uns aos outros.
Quando sou os dois "eus", a cadeira e seu sistema (com botões, fios, motor, circuito) fazem parte do meu corpo. Uma curiosidade bacana é que como pessoa com deficiência que sou, que possui um novo olhar sobre uma cadeira de rodas e de um sentir mais profundo dos toques, consigo sentir quando alguém toca na cadeira, parecendo que o toque foi em mim. Quando uma pessoa interage com minha cadeira, ao passar levemente as mãos sobre minha mesa (por exemplo), a sensação é que ela está presente no momento, que está envolvida no que tenho a dizer, enfim, compartilhando vibrações positivas comigo.
Ter uma cadeira motorizada é muito mais do que me locomover - é ter autonomia e asas para simplesmente, tentar aproveitar ao máximo tudo aquilo que a vida tem a me ensinar e me emocionar.
12 comentários:
Oi Fábio
Vim te fazer uma visita!!!
Amei demais este texto!!! Sério!!
Você descreveu de uma forma tão interessante essa sua etapa, como você foi se acostumando com a cadeira, vencendo as limitações...uma a uma. E isto é um ensinamento que eu levo hoje deste texto: Nós vamos nos adaptando as dificuldades para evoluir. E, independente se seja algo difícil ou exija muito tempo, a gente consegue.Sempre consegue. Basta querer e não desistir.
Você fez um texto falando do seu "eu, robô". Eu estou tão habituada com a sua presença que as vezes até esqueço que você usa uma cadeira para se locomover. É que você se destaca tando pelas suas habilidades, inteligência e carisma, que isso vira um detalhe. O que quero dizer é que ela não te limita a tudo porque sua mente é livre e voa, bem alto.
Beijos!!
Obrigada pelo texto, me ajudou muito hoje! Que Deus te abençoe sempre!!!
Fábio,
Texto muito bem feito e com ensinamento importante. Vc fala das marcas nas paredes, nas portas, mas as marcas que realmente ficam não são do "eu robô" mas aquelas que são feitas pelo seu "eu interior". Os seus sentimentos , o seu sorriso, o jeito carismático que impressiona as pessoas, a sua fé, tudo isto fica registrado em nossos corações.
Concordo com a Fernanda quando diz que até esquece o fato de vc usar cadeira. A sua vontade de viver, de amar, de ajudar, ficam todas em primeiro plano.
Estou adorando seus textos e os títulos deles. Continue nos presenteando com palavras que ensinam e emocionam.
Beijos no coração.
Tania
vc é o "eu robô" e eu sou darth vader, por causa do bipap, hehe.
abs.
Querido afilhado,concordo com a Tania. O que importa são as marcas que estão ficando do seu "eu interior". Lendo os seus textos estou te conhecendo um pouco mais (poucas vezes você falou de si - era tímido como o padrinho,he he he) e cada vez mais, vejo o quanto é especial. Você nos mostra um poder de superação, uma grande capacidade de adaptação e uma grande vontade de ir, isto mesmo, ir a onde a vida te levar.
No seu "eu robô" você caminha por espaços físicos, vai para a esquerda, vai para a direita, quando precisa dá marcha à ré, mas acima de tudo vai sempre à frente. Com o seu "eu interior" você faz mais que isso: você é capaz de voar e com certeza, nos leva contigo por lugares muitas vezes desconhecidos.
Um grande beijo e que Deus te abençõe sempre.
Ruy
Oi Fábio,
É a Paulinha Pavan, do blog 'Assim como você', td bem? Não sabia que vc tinha um blog, vou tentar estar mais atenta às suas postagens. Gostei mto dessa última, inclusive, estou estagiando com uma T.O. que prescreve cadeiras de rodas, e é mto interessante ver como uma cadeira adequada às necessidades da pessoa pode fazer tanta diferença para a vida como um todo. Parabéns pelo texto, adorei!
Grande beijo,
Paulinha.
Oi Fernanda,
Que ótima surpresa sua visita, que me trouxe tanta energia positiva... Muito obrigado! É uma alegria sentir seu envolvimento com o texto!
Na minha vida, ao longo de minha caminhada encontro novas limitações com o tempo e tenho que encontrar forças diariamente para seguir em frente. Os problemas nunca se adaptam a nós, por isso esta necessidade que temos para nos adaptar a eles, aceitando-os e buscando uma forma de ultrapassá-los. Nunca é fácil, mas a fé nos leva muito longe, da mesma forma que me trouxe até aqui.
É engraçado que na rotina, rodar com minha cadeira é tão natural, que nem percebo que uso uma cadeira motorizada. Procuro fazer as coisas de igual para igual, claro que com um pouquinho mais de esforço. Tento a cada momento e situação, aprender de modo a evoluir no meu interior. A mente realmente viaja sob o pensamento que colocamos na cabeça, com um toque do sentimento no coração.
Admiro sua visão positiva da vida e é por isso que suas palavras são ricas em ensinamentos. Se por um lado, te ajudei de alguma forma (e já fico feliz por isso), por outro, recebi tantas lições através de seu comentário e daquela conversa que tivemos na faculdade.
Agradeço por tudo e por indicar meu blog para outras pessoas, com uma grande sinceridade e carinho!
Que Deus te abençoe, beijos,
Fábio
Olá Tania,
É tão gratificante perceber os diversos significados que esse texto trouxe a cada um, e se foi possível sentir algum ensinamento, agradeço a Deus por poder compartilhar aqui.
É a vivência das marcas "na parede da vida" que nos faz a cada experiência, pessoas melhores, enriquecendo-nos no espírito.
Me contenta saber que minha trajetória sobre rodas, através desta alma, que move essas rodas em cada instante e que com esse movimento procura tirar algo de bom da vida. O que realmente importa é o amor. A vontade de viver pela fé, é capaz de vencer qualquer dificuldade.
Obrigado pelos elogios aos textos e principalmente por sempre me acompanhar aqui, também me ensinando e emocionando com seus comentários.
Beijos,
Fábio
E aí Estevão,
Então quer dizer que se tiver alguma festa de fantasia, já estaremos vestidos a caráter hehe
Aí teria a presença de um Robocop e um Darth Vader hehehehe
Valeu pela visita!
Um grande abraço,
Fábio
Querido Padrinho,
É verdade, mais importante do que as marcas na parede e do que os erros, são as marcas de belos sentimentos que deixamos no coração de cada pessoa que faz parte de nossa vida. Se meu "eu interior" te toca, as emoções e o carinho que vocês compartilham comigo me tocam profundamente.
Me arrependo de ter falado tão pouco de mim antes e de ter guardado para mim algumas dores, na época em que era pequeno e já tinha que ter amadurecido com meus problemas físicos.
No fim, tudo isso acabou me transformando na pessoa que sou hoje, com mais experiência. Agora já falo mais de mim, não só pessoalmente como por meio dos textos. Sou grato a essas oportunidades que encontro de conversar com vocês e sinto que podem me conhecer ainda mais em cada uma delas.
A crença de que os aprendizados que conquisto e a vivência do amor são bençãos, me faz acreditar que vale a pena ultrapassar os obstáculos todos os dias. Sei que minha vida me levará até Deus e aonde vou sentir cada vez mais amor. Existirão os caminhos irregulares, seja pelo preconceito ou pela falta de acessibilidade, mas sei que para viver, é preciso seguir em frente para chegar nas realizações.
A presença das pessoas que sinceramente me acompanham de todas as formas, me faz voar ainda mais e nas alturas, me dão a leveza para flutuar intensamente em cada momento!
Tudo de bom para vocês, que Deus ilumine suas vidas igualmente.
Beijos,
Binho
Oi Paulinha,
Que imenso prazer receber sua visita no meu cantinho! Fico feliz por ter encontrado meu blog e me abençoado com suas palavras.
Que legal você estagiar nessa area, buscando trazer qualidade de vida para quem precisa de uma boa cadeira de rodas. Quando a cadeira é boa e adequada às nossas necessidades, é possivel viver a vida no presene, aproveitando e aprendendo ao máximo o que ela tem para nos dar.
Obrigado pelo carinho, beijos,
Fábio
Fala ae primão,
Ficou muito bem escrito, conseguiu desenvolver uma coisa bem legal falando da cadeira motorizada.
Fico feliz de ver como você sabe aproveitar tudo o que tem!
Parabéns!!!
Abraços,
Renan Andrade
www.myspace.com/renanandrade
Fala ae Renan,
Valeu pelos elogios ao texto, é bem gratificante recebê-los de você!
Inicialmente, pode-se ver apenas o lado racional e mecânico da cadeira de rodas motorizada, considerando-a como equipamento que oferece mobilidade a quem usa. Mas é muito mais do que isso, é como dar asas para voar, é a oportunidade de ganhar liberdade sobre rodas. A cadeira motorizada não equivale a um carro meu e sim à uma extensão de meu corpo que me permite me movimentar, através das vontades, que me fazem apertar o botão na direção desejada.
Ter independência para ir a vários lugares, rodar para lá e para cá no dia-a-dia, tanto dentro de casa como fora, se reflete na possibilidade de viver a vida da forma que posso neste momento, graças a Deus.
Um grande abraço,
Fábio
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