quarta-feira, 22 de julho de 2009

Orgulho ou/e Independência

Olá pessoas!

Pois é, fiquei mais um tempinho sem escrever no blog... E ultimamente andei pensando em escrever um pouco mais sobre o universo das pessoas com deficiência, do qual faço parte. Com os últimos grandes acontecimentos - apareci ao vivo num programa falando sobre acessibilidade e inclusão, na Noite de Autógrafos convidei amigos cadeirantes e vesti uma camiseta especial - pensei que chegou a hora de falar sobre o assunto. Sempre gostei de escrever sobre a vida e as postagens anteriores transmitiam de forma poética a reflexão para uma vida equilibrada e com a prática do amor. Por isso, vou tentar fazer um mix de tudo isso no blog e ver como pode ficar.

Todo mundo gosta de ter liberdade em sua vida e de ter direito à independência, fazendo o que quer que seja sem precisar de outra pessoa. Em nós, pessoas com algum tipo de deficiência, também há este sentimento. Mas existem os momentos nos quais precisamos de uma mãozinha. Nesse caso, pediremos a ajuda necessária ou dependendo da circunstância no dia-a-dia, quem estiver perto e sentir vontade de ajudar, deve perguntar antes ao invés de sair empurrando a cadeira. Isso não é orgulho ruim (aquele orgulho egoísta) e sim uma forma eficiente de auxílio, pois só acontecerá o auxílio se nós realmente estivermos precisando e se for esclarecido como isso pode ser feito.

Existem também, os momentos em que temos prazer de fazer algo por conta própria. São as horas de nossa independência, quando pedimos para deixarem tudo preparadinho para depois assumirmos o controle de certa atividade. É como segurar um pássaro, prepará-lo e em seguida deixá-lo voar com as próprias asas. Ou seja, se nos sentimos em condições de botar em prática algumas tarefas do dia-a-dia, é importante entrar em ação, seja para exercitar o corpo, para trabalhar o movimento, a coordenação e com isso colaborar na própria saúde. Trabalhar em hobbies, desenvolver os talentos, criar obras de arte é algo que nos traz ótimas sensações, apenas pelo fato de colocarmos nossa criatividade e transmitir nossa visão de mundo e de vida. Ao terminar uma atividade e ver seu resultado final, eleva sempre nossa auto-estima, nosso amor próprio e a confiança em nossa capacidade. Esse é o orgulho bom, aquele de sentir-se feliz por começar algo e terminar, por mérito próprio. Isso é algo que não tem preço.

É preciso saber separar a hora de nos ajudar da hora de nos deixar curtir o instante alegre, da auto-realização. Praticarmos idéias e projetos nos quais desejamos seguir é só benefícios para nós, pessoas com deficiência e quem nos quer bem. Incentivar o desenvolvimento dessas atividades é melhor ainda. Movimentar o corpo faz bem para nossa saúde e nosso espírito. Se temos algum movimento, porque não usá-los para um prazeroso exercício que é viver? Vendo cada dia como oportunidade de descobrir do que somos capazes.

Mas esta atitude independente não ocorre apenas nos talentos e artes, mas também em simples tarefas da rotina, como: se alimentar (por exemplo, peço para colocarem em mim algumas almofadas nas costas e na mesa da cadeira, pois não tenho força para levantar os braços e levar a comida na boca - uso os apetrechos para me aproximar do prato e assim eu mesmo comer; consigo fazer movimentos curtos com os braços e mãos), ler (gosto de ler revistas, onde uso almofadas para aproximá-la e poder passar as páginas; e de ler livros, que é mais fácil, pois é só pegá-los para mim e segurá-los eu consigo), escrever (em caderno ou em papel, basta pegar os materiais para mim, pois ainda escrevo - um pouco lento pelas dificuldades, mas gosto de escrever - e no computador, basta pegar o teclado mais o mouse ou, se for notebook, é só colocá-lo na mesa da minha cadeira), etc. A verdade é que em nenhum momento eu estou "forçando a barra" do meu corpo, pois faço tudo aquilo que tenho condições de fazer atualmente, sinto prazer em realizar algumas "façanhas" sozinho, vejo também com um olhar de exercício e não me canso com essas atividades diárias. Pelo contrário, me sinto renovado. Novamente, não se trata do orgulho ruim, mas do orgulho bom, que faz bem para o coração, aliado à uma certa independência.

Devo lembrar que são vários tipos de deficiência, com várias causas diferentes e há uma variedade de dificuldades. Só que se as condições físicas possibilitarem a prática de algo, o que desejar, sentir vontade, vale muito a pena para o corpo, exercitando-o e adquirindo mais saúde. Sem contar, que será um hábito saudável para viver.

A ajuda e o apoio das pessoas à nossa volta são sempre bem-vindos, principalmente se estiverem perto para ouvirem nosso chamado e antes de chegar já ajudando, perguntarem se estamos precisando de uma mãozinha. Sou grato a todos que me ajudam durante cada dia. Sem essas pessoas, não seria possível meus instantes independentes.

Orgulho e independência: você segura o pássaro, com todo carinho, transmite a ele palavras de incentivo, através de uma alegria contagiante. Caminha com ele nas mãos, segurando-o de forma firme e ao mesmo tempo delicada. Se mantém ao seu lado, cria um ambiente de confiança e amor. Finalmente encontra o lugar ideal, de tamanho suficiente para amplas possibilidades, para que o pássaro escolha, por conta própria, o seu próprio caminho na imensidão do céu. Você abre as mãos, aos poucos e estende os braços mais para o alto e aguarda o esplendoroso momento. Deseja boa sorte ao amigo voador. Ansioso, o pássaro se prepara para o voo, se ajeita para o impulso inicial. Em questão de segundos, ele já não está mais em sua mão e voa, se misturando com o ar, fazendo parte dele. Como é um orgulho você ter feito parte deste momento mágico e real da natureza, ter ajudado o pássaro em seu caminho, para sua vida independente no céu; ele certamente lembrará da importância do empurrãozinho que você deu. O pássaro também sentiu-se orgulhoso por ter feito o que tanto desejava, um voo encantador e inesquecível; ele sentiu-se feliz por ter feito sozinho isso.


Abraços

8 comentários:

Glória Maria disse...

Fábio, é incrível como vc coloca poesia em tudo que escreve...a comparação com o pássaro foi linda! Entendo muito bem essa sua satisfação em fazer algo com independência. Meu marido, cadeirante, é independente em, praticamente, tudo que faz, mas em algumas coisas precisa de ajuda e não se sente mal em pedí-la. Mas o que o irrita é quando alguém vem ajudando sem perguntar se é preciso...acaba ajudando de forma errada. Sei o quanto é importante essa independência dele, eu também erro (confesso), muitas vezes querendo fazer algo por ele, algo que ele pode fazer sozinho...mas erramos por amor, também. Vejo a maior felicidade nos olhos dele, quando vai passear com nosso filho Lucas,de 1 ano e meio, só os dois, aqui no bairro, ou de metrô...ser capaz de passear, sozinho, com o flho, é uma das maiores alegrias da vida dele...é a independência que o deixa mais feliz, capaz, INTEIRO! Que vc continue tendo, ao seu lado, pessoas especiais, que te ajudam a alcançar voos encantadores e inesquecíveis.
Beijo grande

Unknown disse...

Fábio,

Encantador o seu jeito de falar da dificuldade, da necessidade de mostrar o que consegue, do auxílio que é possível e tb deste "orgulho bom".
Deu uma mensagem muito esclarecedora, positiva e ainda fazendo uma comparação poética com o pássaro.
Gostei demais!
Falou muitas verdades ,e acredito que desperte reflexões naqueles que tiverem a oportunidade de ler.
Beijos e bom final de semana (apesar do frio e chuva!!!)
Tania

**Grazzi** disse...

Lindo Fabinho!
Me encontrei perfeitamente no seu texto... eh assim q me sinto muitas vezes e nem sempre sou compreendida rsss

Beijo querido!
Grazzi

Fábio Cassiano disse...

Glória,

Acredito que a poesia é quando se coloca o coração em tudo o que escreve: a liberdade de um pássaro em voar é algo inspirador.
Essa satisfação é sentida por qualquer um, independente das diferenças e é justamente esta reflexão que nos mostra a importância de permitir que as pessoas com deficiência possam voar na imensidão do céu.
Perguntar antes de ajudar, acho que deve ser uma decisão tomada para ser útil da melhor forma possível e gerando troca sincera de amor.
Deve ser um momento bem emocionante ele passeando com o filho =)
A independência é uma sensação incrível, que nos abre a várias possibilidades de viver bem e pode despertar o "orgulho bom" no coração!
Muito obrigado. É uma benção ter pessoas ao meu lado, para me ajudar no que eu precisar. São anjos que trazem o ambiente necessário para fazer coisas independentes. Da mesma forma que você traz esse ambiente para seu marido. São gestos como esse que demonstram a beleza da vida.
Beijos,

Fábio

Fábio Cassiano disse...

Tânia,

Fico feliz que tenha gostado desta minha nova abordagem, falando um pouco mais das dificuldades cotidianas, com um toque de poética, reflexão e informação.
É incrível como a palavra orgulho tem dois sentidos totalmente opostas, por isso no título está e/ou, pois o orgulho pode estar tanto contra como aliado à independência.
A história do pássaro surgiu enquanto escrevia o texto e penso em colocar um parágrafo poético no final, para fazer metáforas.
Se o texto despertou essas reflexões, me sinto contente, pois no blog procuro acrescentar algo às pessoas, compartilhando meus aprendizados.
Beijos e bom final de semana.

Fábio

Fábio Cassiano disse...

Olá Grazzi!

Fiquei feliz em receber seu comentário e adorei suas palavras.
Que bom saber que não sou só eu que acreditá nessa idéia de orgulho e independência rsrs
Acho que todo mundo sente isso e com nós, pessoas com deficiência, não pode ser diferente. É nisso que devemos fazer todos refletirem e se colocarem em nossos lugares.
Beijos carinhosos,

Fábio

Unknown disse...

Olá poeta!

Muito esclarecedor o texto, pois muitas vezes tentamos ajudar mas não percebemos q estamos invadindo o espaço, é como se a gnt quisesse bater as asas do pássaro no lugar dele. Ah, por sinal, muito boa a comparação com o pássaro.

Beijoss

Fábio Cassiano disse...

Olá Jaque!

Muito obrigado por visitar meu blog e por deixar belos comentários! Fiquei feliz com isso =)

Que bom saber que consegui esclarecer bem sobre o assunto. A verdade é que é sempre bem-vinda a vontade das pessoas em ajudar, mas é melhor perguntar antes sobre a melhor forma de ajudar, pois assim pode-se evitar que algo dê errado.

Acho que sendo cadeirante ou não, ser ajudado depende de uma boa conversa entre as pessoas, sempre de forma amigável e sincera ao invés de chegar ajudando.

O pássaro, no exemplo que descrevi, precisou de uma mãozinha para pegar impulso e voar e é justamente nessa parceria que gostaria de destacar.

Beijos,

Fábio